Biográfico

Biográfico

O Horror Pessoal de Ari Aster

20/4/2023

Diante de uma nova abordagem para o horror, Ari Aster é um dos diretores que mais tem se destacado no gênero nos últimos anos, com sua abordagem mais íntima, psicológica e até mesmo sarcástica dos traumas de seus protagonistas.

escrito por
Luis Henrique Franco

Diante de uma nova abordagem para o horror, Ari Aster é um dos diretores que mais tem se destacado no gênero nos últimos anos, com sua abordagem mais íntima, psicológica e até mesmo sarcástica dos traumas de seus protagonistas.

escrito por
Luis Henrique Franco
20/4/2023

O terror é um dos gêneros clássicos do cinema, existindo desde a sua criação e assumindo ao longo do último século diferentes formas que o dividiram nos mais variados subgêneros. Extremamente adaptável, é um gênero que sempre buscou inovar em suas diferentes maneiras de apavorar o público, seja com abordagens mais sutis, seja através do gore e da violência. Os últimos anos viram o crescimento de um desses subgêneros especiais, agora mais voltados para um horror psicológico e que reflete o interior conturbado de seus protagonistas. Um subgênero que serviu de palco para a ascensão de Ari Aster como um dos nomes mais famosos dos últimos anos.

Nascido em 1986, Aster trabalha com direção desde 2008, mas por quase dez anos suas produções se resumiram a curtas-metragens, entre os quais podem se destacar Beau (2011), que serviria de inspiração para o longa Beau Tem Medo (2023), também do diretor, e Munchausen (2013). Sua jornada através do longa-metragem só foi se iniciar em 2018, quando o diretor lançou Hereditário, filme que chocou a audiência com a sua proposta e a sua exploração do horror e dividiu o público entre aqueles que desgostaram do longa e os que o consideram como um clássico moderno do gênero. Divisão essa que, a princípio, parece atingir seus outros trabalhos de longa-metragem, visto que seu filme subsequente, Midsommar (2019), também provocou essa contenda de opiniões.

Retrato do cineasta Ari Aster, por Victor Llorente para o The New York Times.
Victor Llorente para o The New York Times

Independente do gosto e das opiniões das pessoas, a verdade é que Ari Aster procura colocar em seus filmes muitos aspectos diferentes para serem interpretados, levando a reflexões diferentes a partir dos momentos que constrói em sua narrativa. Seja por aquilo que mostra de fato na cena, por aquilo que cada momento deixa implícito ou pela reflexão geral de toda a trama, o horror de Aster procura sempre atingir o expectador em algum nível interno e pessoal.

O OLHAR ININTERRUPTO

Um dos aspectos mais marcantes do trabalho de Aster é a forma como ele conduz as cenas de horror em seus filmes, muitas vezes se valendo de planos longos sem um grande número de cortes. Isso por si só elimina o uso de jumpscares em inúmeras cenas, nas quais a tensão se constrói conforme o personagem é seguido pela câmera, seus movimentos acompanhados sem mudanças drásticas. É uma técnica interessante porque permite que o espectador esteja mais atento a detalhes na cena, podendo captar alguma coisa escondida nos fundos do cenário. Não é por acaso que o próprio diretor coloca elementos e personagens ocultos nos fundos da cena, muitas vezes no intuito de provocar esse olhar mais atento e paranoico sobre seus filmes.

Aster utiliza essa técnica para alimentar um tipo de horror que não se baseia em sustos rápidos. No terror dos jumpscares e dos ataques repentinos, o medo e a tensão são rapidamente liberados, permitindo ao espectador um momento de recuperação em meio à narrativa. Mas com suas tomadas longas, momentos prolongados de silêncio e poucos sustos repentinos, Aster estabelece como sua prioridade a construção contínua da tensão, propiciando raros momentos para sua liberação e forçando-a a crescer cada vez mais, o que, por si só, propicia também um maior momento de catarse quando toda essa energia é por fim liberada.

O diretor também se destaca pelo seu uso da violência, por dois fatos que quase parecem opostos: Suas cenas de violência física são bastante pesadas e brutais, mas não são muito numerosas. Essa combinação cria uma situação narrativa interessante, onde o uso da violência não se desgasta ou perde seu choque. Seja o acidente de Charlie em Hereditário ou o sacrifício realizado em Midsommar, tais cenas permanecem na memória do público por sua brutalidade e pelo fato de que, ao longo do filme, são poucas as demais cenas que trarão essa violência gráfica tão pesada.

Charlie, personagem que protagoniza uma das cenas mais pesadas e angustiantes de Hereditário

Que fique claro que Aster não é o primeiro diretor a não se valer de uma violência física constante e a privilegiar um horror psicológico e emocional nas suas cenas. O que torna essas cenas tão icônicas é justamente o fato de que elas se destacam em narrativas que parecem mais interessadas em construir uma tensão prolongada e interna dos personagens, e ainda assim esse breve momento de choque físico intenso é efetivo. Ao colocar essas poucas cenas de brutalidade física nos filmes, geralmente estabelecendo-as como gatilhos para os personagens, o diretor permite que o público também sofra os efeitos transtornadores de tal cena, colocando os espectadores no mesmo patamar que os personagens e permitindo que a mesma tensão cresça em ambos.

OS RITUAIS

Outro aspecto bastante proeminente nos filmes de Aster é a presença de algum culto ou ritual pagão, geralmente ligado a um grupo de personagens do qual os protagonistas não fazem parte, mas com quem estabelecem relações ao longo do filme. Hereditário apresenta esse aspecto em um estágio mais avançado da narrativa, apesar de lhe dar importância para a trama como um todo, ao passo que Midsommar introduz esse aspecto como uma das forças principais de sua história.

Cultos pagãos e religiões estranhas à sociedade ocidental cristã são temas muito usados em filmes de terror, como forma de mobilizar alguma força oculta e explorar o medo das pessoas em relação ao desconhecido. Aster, mais uma vez, não parece inventar algo novo ao introduzir esse elemento, com o qual trabalha com bastante fervor em seus filmes. E, mais uma vez, é o seu uso desses elementos que dá destaque aos seus filmes. Porque o diretor não se limita a estabelecer esses cultos como uma força maligna em si só, mas opta por trabalhá-los como um elemento estrangeiro e desconhecido, mas que oferece aos protagonistas algum atrativo.

Midsommar deixa isso muito mais esclarecido. O próprio motivo do grupo de protagonistas é viajar para a Suécia no intuito de testemunhar e estudar um ritual pagão tradicional. Existe uma força motriz primordial que os conduz ali com um objetivo específico, que leva o filme a explorar o ritual praticado de uma forma mais atenta a detalhes e complexa. E, a partir desse desejo inicial, o filme constrói a relação da protagonista (vivida por Florence Pugh) com o ritual, adentrando-o como uma forma de enfrentar e aceitar os traumas das perdas familiares que a aterrorizam tanto. Existe um propósito maligno em alguns membros do culto, especialmente diante dos integrantes do grupo que desejam destrinchar os segredos do local de maneira mais profunda do que o permitido. Mas, para a protagonista em si, o culto se torna, ao longo da narrativa, uma experiência para tentar lidar com um problema interno e pessoal dela.

A personagem de Florence Pugh em Midsommar envolta por flores como parte do ritual

Embora estabeleça seu culto em um estágio mais avançado da narrativa, Hereditário também se vale desse uso do mesmo. Porque, quando é introduzido na narrativa, o culto é estabelecido como uma resposta para uma família incapaz de lidar com a perda da filha mais jovem. Seus integrantes possuem intenções maléficas e o uso do ritual já estava planejado há tempos, mas a maneira como a família é trazida para o mesmo reflete a incapacidade de seus membros de lidarem com essa perda que os atormenta. É a sua culpa e o luto que sentem que os leva a cair nas maquinações do mesmo.

O que torna o uso desses rituais no filme de Aster interessante é que tais rituais não são empregados como uma força maligna quase onisciente, que entra na vida dos protagonistas por conta de alguma decisão sem motivo que eles tomam. Em vez disso, eles oferecem aos protagonistas uma resposta para uma aflição que eles sentem, e recebem permissão para crescer em força por causa do desejo dos próprios protagonistas de silenciar essa aflição, sem perceber o que estão alimentando para isso.

O HORROR DOS TRAUMAS INTERNOS

No contexto geral, é impressionante por si só que Aster combine os dois aspectos listados acima de maneira tão eficiente, dando aos seus filmes um toque de sobrenatural com os cultos sem precisar recorrer a jumpscares baratos de móveis batendo ou portas abrindo do nada, ou mesmo cenas de violência desnecessárias. A opção por uma tensão crescente e acumulativa dá ao espectador a horrível sensação de um mal que aos poucos se torna mais e mais forte, sem se revelar com muita clareza, o que aumenta ainda mais a nossa ansiedade.

No topo de tudo isso, porém, existe um terceiro elemento sempre presente nos filmes de Aster. Um que se torna primordial para que suas histórias tenham o efeito que possuem: a atenção essencial aos traumas e dores dos protagonistas, e à maneira como estes os impulsionam em suas decisões. Porque, mesmo que os aspectos sobrenaturais tenham o seu local nos filmes de Aster, sua presença só é reforçada como elemento de terror por causa de algo interno aos personagens, alguma dor que eles já carregam e que intensifica as situações horríveis em que eles se colocam.

A força que esse aspecto do trauma concede aos filmes é a maneira como ele faz com que os elementos sobrenaturais assumam uma explicação parcial que coloca o espectador em dúvida sobre o que está acontecendo. No caso de Hereditário, a prática dos rituais pagãos pelo culto que persegue a família aponta para um lado sobrenatural real, mas esse aspecto só é confirmado na parte final do longa. Nos encontros iniciais da família com fantasma, esse aspecto, mesmo que presente, reforça muito mais o luto e a culpa de seus integrantes. Estaria Annie (Toni Colette) realmente vendo o fantasma de sua mãe, ou seria apenas seu luto e a reflexão de sua relação conturbada com ela? Será que Peter (Alex Wolff) é realmente atormentado pelo fantasma de sua irmã Charlie (Milly Shapiro) ou é apenas a culpa que ele sente por causa do acidente?

Annie, vivida por Toni Colette, observa horrorizada os efeitos de seus atos em Hereditário

Longe de ser um elemento que nega a existência do sobrenatural, a existência desse trauma nos personagens e a exploração aprofundada do mesmo dá uma nova força e um novo significado aos eventos aterradores que acontecem nas tramas. Sua presença dá um novo propósito à existência do sobrenatural. Fantasmas e demônios não afetam aqueles personagens apenas porque eles foram escolhidos por um culto ou entidade infernal, mas porque existe algo naquele grupo de pessoas que elas não conseguem lidar, algo que atormentou-os profundamente e que permanece dentro deles, como uma culpa ou um medo do qual eles não conseguem se livrar, e que abre espaço para a influência dessas forças sobrenaturais.

Midsommar pode ser o melhor exemplo para analisarmos isso, visto que o sobrenatural neste filme, se existe, é muito mais subentendido do que realmente presente. Existe uma força maléfica por traz dos membros da comunidade, mas boa parte do terror sentido pela personagem vem de seu luto diante da morte de seus pais e do suicídio da irmã, algo com que ela não consegue lidar muito bem. Essa incapacidade de suportar esse trauma transforma sua viagem pela comunidade em uma experiência cheia de horrores. Mas, ao mesmo tempo, é na maneira com que ela acaba se conectando à comunidade pagã que ela encontra uma forma de alcançar um pouco de paz para os abalos em sua vida.

E é nesse ponto em que os outros dois aspectos da obra de Ari Aster também são reforçados pela existência desse aspecto traumático (e, por consequência, também acabam reforçando-o). O uso de cenas prolongadas e de uma tensão acumulativa se beneficia da existência de um medo ou uma culpa dentro dos personagens com os quais eles não lidam, e que permanece lá, crescendo e se acumulando, até não ter mais para onde ir e precisar ser liberado forçosamente. E nesse aspecto, os rituais e cultos surgem como esse aspecto estranho e possivelmente perigoso, mas que oferece algo a esses personagens em conflito interno. Uma forma de libertar essa força nociva que eles carregam em si, de lidar com o problema que os abala. E é através dessa oferta tão necessária que esses rituais capturam os personagens em sua teia e os mergulham nos aspectos realmente sobrenaturais, fortalecidos por esses mesmos traumas que os afetam.

Ari Aster estabelece um parâmetro poderoso para a exploração do horror interno, do terror pessoal e íntimo de seus personagens. Seu uso de elementos fantásticos e sobrenaturais é notório, mas a maior parte da tensão de suas histórias vem dessa incapacidade de seus personagens de lidarem com suas próprias experiências. Nesse aspecto, seus filmes atingem um elemento do terror muito mais próximo do público e mais real. Por esse motivo, seus filmes sempre são desconfortáveis para o público, mesmo que não sejam assustadores. Aster afeta o íntimo das pessoas, sem a necessidade de um excesso de violência ou de aparições terríveis.

Joaquin Phoenix como o protagonista de Beau Tem Medo.

Podemos também analisar a presença desses elementos em Beau Têm Medo, um filme sobre um homem atormentado pela ansiedade que enfrenta uma jornada difícil para retornar para casa. A própria existência desse elemento da ansiedade e do medo do mundo que afeta o protagonista já fortalece o aspecto de um trauma existente com o qual o personagem deve lidar. Elementos do terror, sejam os cultos, a violência ou o lado sobrenatural, que sejam adicionados a essa questão tendem a ser reforçados e a reforçarem esse lado íntimo, criando um elo com o público que permite a compreensão desse lado mais interno do personagem.

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Direção: 
Criação:
Roteirista 1
Roteirista 2
Roteirista 3
Diretor 1
Diretor 2
Diretor 3
Elenco Principal:
Ator 1
Ator 2
Ator 3
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Diante de uma nova abordagem para o horror, Ari Aster é um dos diretores que mais tem se destacado no gênero nos últimos anos, com sua abordagem mais íntima, psicológica e até mesmo sarcástica dos traumas de seus protagonistas.

crítica por
Luis Henrique Franco
20/4/2023

O terror é um dos gêneros clássicos do cinema, existindo desde a sua criação e assumindo ao longo do último século diferentes formas que o dividiram nos mais variados subgêneros. Extremamente adaptável, é um gênero que sempre buscou inovar em suas diferentes maneiras de apavorar o público, seja com abordagens mais sutis, seja através do gore e da violência. Os últimos anos viram o crescimento de um desses subgêneros especiais, agora mais voltados para um horror psicológico e que reflete o interior conturbado de seus protagonistas. Um subgênero que serviu de palco para a ascensão de Ari Aster como um dos nomes mais famosos dos últimos anos.

Nascido em 1986, Aster trabalha com direção desde 2008, mas por quase dez anos suas produções se resumiram a curtas-metragens, entre os quais podem se destacar Beau (2011), que serviria de inspiração para o longa Beau Tem Medo (2023), também do diretor, e Munchausen (2013). Sua jornada através do longa-metragem só foi se iniciar em 2018, quando o diretor lançou Hereditário, filme que chocou a audiência com a sua proposta e a sua exploração do horror e dividiu o público entre aqueles que desgostaram do longa e os que o consideram como um clássico moderno do gênero. Divisão essa que, a princípio, parece atingir seus outros trabalhos de longa-metragem, visto que seu filme subsequente, Midsommar (2019), também provocou essa contenda de opiniões.

Retrato do cineasta Ari Aster, por Victor Llorente para o The New York Times.
Victor Llorente para o The New York Times

Independente do gosto e das opiniões das pessoas, a verdade é que Ari Aster procura colocar em seus filmes muitos aspectos diferentes para serem interpretados, levando a reflexões diferentes a partir dos momentos que constrói em sua narrativa. Seja por aquilo que mostra de fato na cena, por aquilo que cada momento deixa implícito ou pela reflexão geral de toda a trama, o horror de Aster procura sempre atingir o expectador em algum nível interno e pessoal.

O OLHAR ININTERRUPTO

Um dos aspectos mais marcantes do trabalho de Aster é a forma como ele conduz as cenas de horror em seus filmes, muitas vezes se valendo de planos longos sem um grande número de cortes. Isso por si só elimina o uso de jumpscares em inúmeras cenas, nas quais a tensão se constrói conforme o personagem é seguido pela câmera, seus movimentos acompanhados sem mudanças drásticas. É uma técnica interessante porque permite que o espectador esteja mais atento a detalhes na cena, podendo captar alguma coisa escondida nos fundos do cenário. Não é por acaso que o próprio diretor coloca elementos e personagens ocultos nos fundos da cena, muitas vezes no intuito de provocar esse olhar mais atento e paranoico sobre seus filmes.

Aster utiliza essa técnica para alimentar um tipo de horror que não se baseia em sustos rápidos. No terror dos jumpscares e dos ataques repentinos, o medo e a tensão são rapidamente liberados, permitindo ao espectador um momento de recuperação em meio à narrativa. Mas com suas tomadas longas, momentos prolongados de silêncio e poucos sustos repentinos, Aster estabelece como sua prioridade a construção contínua da tensão, propiciando raros momentos para sua liberação e forçando-a a crescer cada vez mais, o que, por si só, propicia também um maior momento de catarse quando toda essa energia é por fim liberada.

O diretor também se destaca pelo seu uso da violência, por dois fatos que quase parecem opostos: Suas cenas de violência física são bastante pesadas e brutais, mas não são muito numerosas. Essa combinação cria uma situação narrativa interessante, onde o uso da violência não se desgasta ou perde seu choque. Seja o acidente de Charlie em Hereditário ou o sacrifício realizado em Midsommar, tais cenas permanecem na memória do público por sua brutalidade e pelo fato de que, ao longo do filme, são poucas as demais cenas que trarão essa violência gráfica tão pesada.

Charlie, personagem que protagoniza uma das cenas mais pesadas e angustiantes de Hereditário

Que fique claro que Aster não é o primeiro diretor a não se valer de uma violência física constante e a privilegiar um horror psicológico e emocional nas suas cenas. O que torna essas cenas tão icônicas é justamente o fato de que elas se destacam em narrativas que parecem mais interessadas em construir uma tensão prolongada e interna dos personagens, e ainda assim esse breve momento de choque físico intenso é efetivo. Ao colocar essas poucas cenas de brutalidade física nos filmes, geralmente estabelecendo-as como gatilhos para os personagens, o diretor permite que o público também sofra os efeitos transtornadores de tal cena, colocando os espectadores no mesmo patamar que os personagens e permitindo que a mesma tensão cresça em ambos.

OS RITUAIS

Outro aspecto bastante proeminente nos filmes de Aster é a presença de algum culto ou ritual pagão, geralmente ligado a um grupo de personagens do qual os protagonistas não fazem parte, mas com quem estabelecem relações ao longo do filme. Hereditário apresenta esse aspecto em um estágio mais avançado da narrativa, apesar de lhe dar importância para a trama como um todo, ao passo que Midsommar introduz esse aspecto como uma das forças principais de sua história.

Cultos pagãos e religiões estranhas à sociedade ocidental cristã são temas muito usados em filmes de terror, como forma de mobilizar alguma força oculta e explorar o medo das pessoas em relação ao desconhecido. Aster, mais uma vez, não parece inventar algo novo ao introduzir esse elemento, com o qual trabalha com bastante fervor em seus filmes. E, mais uma vez, é o seu uso desses elementos que dá destaque aos seus filmes. Porque o diretor não se limita a estabelecer esses cultos como uma força maligna em si só, mas opta por trabalhá-los como um elemento estrangeiro e desconhecido, mas que oferece aos protagonistas algum atrativo.

Midsommar deixa isso muito mais esclarecido. O próprio motivo do grupo de protagonistas é viajar para a Suécia no intuito de testemunhar e estudar um ritual pagão tradicional. Existe uma força motriz primordial que os conduz ali com um objetivo específico, que leva o filme a explorar o ritual praticado de uma forma mais atenta a detalhes e complexa. E, a partir desse desejo inicial, o filme constrói a relação da protagonista (vivida por Florence Pugh) com o ritual, adentrando-o como uma forma de enfrentar e aceitar os traumas das perdas familiares que a aterrorizam tanto. Existe um propósito maligno em alguns membros do culto, especialmente diante dos integrantes do grupo que desejam destrinchar os segredos do local de maneira mais profunda do que o permitido. Mas, para a protagonista em si, o culto se torna, ao longo da narrativa, uma experiência para tentar lidar com um problema interno e pessoal dela.

A personagem de Florence Pugh em Midsommar envolta por flores como parte do ritual

Embora estabeleça seu culto em um estágio mais avançado da narrativa, Hereditário também se vale desse uso do mesmo. Porque, quando é introduzido na narrativa, o culto é estabelecido como uma resposta para uma família incapaz de lidar com a perda da filha mais jovem. Seus integrantes possuem intenções maléficas e o uso do ritual já estava planejado há tempos, mas a maneira como a família é trazida para o mesmo reflete a incapacidade de seus membros de lidarem com essa perda que os atormenta. É a sua culpa e o luto que sentem que os leva a cair nas maquinações do mesmo.

O que torna o uso desses rituais no filme de Aster interessante é que tais rituais não são empregados como uma força maligna quase onisciente, que entra na vida dos protagonistas por conta de alguma decisão sem motivo que eles tomam. Em vez disso, eles oferecem aos protagonistas uma resposta para uma aflição que eles sentem, e recebem permissão para crescer em força por causa do desejo dos próprios protagonistas de silenciar essa aflição, sem perceber o que estão alimentando para isso.

O HORROR DOS TRAUMAS INTERNOS

No contexto geral, é impressionante por si só que Aster combine os dois aspectos listados acima de maneira tão eficiente, dando aos seus filmes um toque de sobrenatural com os cultos sem precisar recorrer a jumpscares baratos de móveis batendo ou portas abrindo do nada, ou mesmo cenas de violência desnecessárias. A opção por uma tensão crescente e acumulativa dá ao espectador a horrível sensação de um mal que aos poucos se torna mais e mais forte, sem se revelar com muita clareza, o que aumenta ainda mais a nossa ansiedade.

No topo de tudo isso, porém, existe um terceiro elemento sempre presente nos filmes de Aster. Um que se torna primordial para que suas histórias tenham o efeito que possuem: a atenção essencial aos traumas e dores dos protagonistas, e à maneira como estes os impulsionam em suas decisões. Porque, mesmo que os aspectos sobrenaturais tenham o seu local nos filmes de Aster, sua presença só é reforçada como elemento de terror por causa de algo interno aos personagens, alguma dor que eles já carregam e que intensifica as situações horríveis em que eles se colocam.

A força que esse aspecto do trauma concede aos filmes é a maneira como ele faz com que os elementos sobrenaturais assumam uma explicação parcial que coloca o espectador em dúvida sobre o que está acontecendo. No caso de Hereditário, a prática dos rituais pagãos pelo culto que persegue a família aponta para um lado sobrenatural real, mas esse aspecto só é confirmado na parte final do longa. Nos encontros iniciais da família com fantasma, esse aspecto, mesmo que presente, reforça muito mais o luto e a culpa de seus integrantes. Estaria Annie (Toni Colette) realmente vendo o fantasma de sua mãe, ou seria apenas seu luto e a reflexão de sua relação conturbada com ela? Será que Peter (Alex Wolff) é realmente atormentado pelo fantasma de sua irmã Charlie (Milly Shapiro) ou é apenas a culpa que ele sente por causa do acidente?

Annie, vivida por Toni Colette, observa horrorizada os efeitos de seus atos em Hereditário

Longe de ser um elemento que nega a existência do sobrenatural, a existência desse trauma nos personagens e a exploração aprofundada do mesmo dá uma nova força e um novo significado aos eventos aterradores que acontecem nas tramas. Sua presença dá um novo propósito à existência do sobrenatural. Fantasmas e demônios não afetam aqueles personagens apenas porque eles foram escolhidos por um culto ou entidade infernal, mas porque existe algo naquele grupo de pessoas que elas não conseguem lidar, algo que atormentou-os profundamente e que permanece dentro deles, como uma culpa ou um medo do qual eles não conseguem se livrar, e que abre espaço para a influência dessas forças sobrenaturais.

Midsommar pode ser o melhor exemplo para analisarmos isso, visto que o sobrenatural neste filme, se existe, é muito mais subentendido do que realmente presente. Existe uma força maléfica por traz dos membros da comunidade, mas boa parte do terror sentido pela personagem vem de seu luto diante da morte de seus pais e do suicídio da irmã, algo com que ela não consegue lidar muito bem. Essa incapacidade de suportar esse trauma transforma sua viagem pela comunidade em uma experiência cheia de horrores. Mas, ao mesmo tempo, é na maneira com que ela acaba se conectando à comunidade pagã que ela encontra uma forma de alcançar um pouco de paz para os abalos em sua vida.

E é nesse ponto em que os outros dois aspectos da obra de Ari Aster também são reforçados pela existência desse aspecto traumático (e, por consequência, também acabam reforçando-o). O uso de cenas prolongadas e de uma tensão acumulativa se beneficia da existência de um medo ou uma culpa dentro dos personagens com os quais eles não lidam, e que permanece lá, crescendo e se acumulando, até não ter mais para onde ir e precisar ser liberado forçosamente. E nesse aspecto, os rituais e cultos surgem como esse aspecto estranho e possivelmente perigoso, mas que oferece algo a esses personagens em conflito interno. Uma forma de libertar essa força nociva que eles carregam em si, de lidar com o problema que os abala. E é através dessa oferta tão necessária que esses rituais capturam os personagens em sua teia e os mergulham nos aspectos realmente sobrenaturais, fortalecidos por esses mesmos traumas que os afetam.

Ari Aster estabelece um parâmetro poderoso para a exploração do horror interno, do terror pessoal e íntimo de seus personagens. Seu uso de elementos fantásticos e sobrenaturais é notório, mas a maior parte da tensão de suas histórias vem dessa incapacidade de seus personagens de lidarem com suas próprias experiências. Nesse aspecto, seus filmes atingem um elemento do terror muito mais próximo do público e mais real. Por esse motivo, seus filmes sempre são desconfortáveis para o público, mesmo que não sejam assustadores. Aster afeta o íntimo das pessoas, sem a necessidade de um excesso de violência ou de aparições terríveis.

Joaquin Phoenix como o protagonista de Beau Tem Medo.

Podemos também analisar a presença desses elementos em Beau Têm Medo, um filme sobre um homem atormentado pela ansiedade que enfrenta uma jornada difícil para retornar para casa. A própria existência desse elemento da ansiedade e do medo do mundo que afeta o protagonista já fortalece o aspecto de um trauma existente com o qual o personagem deve lidar. Elementos do terror, sejam os cultos, a violência ou o lado sobrenatural, que sejam adicionados a essa questão tendem a ser reforçados e a reforçarem esse lado íntimo, criando um elo com o público que permite a compreensão desse lado mais interno do personagem.

confira o trailer

Biográfico

Ari Aster

Diante de uma nova abordagem para o horror, Ari Aster é um dos diretores que mais tem se destacado no gênero nos últimos anos, com sua abordagem mais íntima, psicológica e até mesmo sarcástica dos traumas de seus protagonistas.

escrito por
Luis Henrique Franco
20/4/2023
Ari Aster
Cineasta
nascimento
1986
Ari Aster é um diretor de cinema que integra uma nova geração de mestres do terror, trazendo uma abordagem do tema que mergulha em um horror mais psicológico e intimista dos traumas de seus personagens.

Diante de uma nova abordagem para o horror, Ari Aster é um dos diretores que mais tem se destacado no gênero nos últimos anos, com sua abordagem mais íntima, psicológica e até mesmo sarcástica dos traumas de seus protagonistas.

escrito por
Luis Henrique Franco
20/4/2023

O terror é um dos gêneros clássicos do cinema, existindo desde a sua criação e assumindo ao longo do último século diferentes formas que o dividiram nos mais variados subgêneros. Extremamente adaptável, é um gênero que sempre buscou inovar em suas diferentes maneiras de apavorar o público, seja com abordagens mais sutis, seja através do gore e da violência. Os últimos anos viram o crescimento de um desses subgêneros especiais, agora mais voltados para um horror psicológico e que reflete o interior conturbado de seus protagonistas. Um subgênero que serviu de palco para a ascensão de Ari Aster como um dos nomes mais famosos dos últimos anos.

Nascido em 1986, Aster trabalha com direção desde 2008, mas por quase dez anos suas produções se resumiram a curtas-metragens, entre os quais podem se destacar Beau (2011), que serviria de inspiração para o longa Beau Tem Medo (2023), também do diretor, e Munchausen (2013). Sua jornada através do longa-metragem só foi se iniciar em 2018, quando o diretor lançou Hereditário, filme que chocou a audiência com a sua proposta e a sua exploração do horror e dividiu o público entre aqueles que desgostaram do longa e os que o consideram como um clássico moderno do gênero. Divisão essa que, a princípio, parece atingir seus outros trabalhos de longa-metragem, visto que seu filme subsequente, Midsommar (2019), também provocou essa contenda de opiniões.

Retrato do cineasta Ari Aster, por Victor Llorente para o The New York Times.
Victor Llorente para o The New York Times

Independente do gosto e das opiniões das pessoas, a verdade é que Ari Aster procura colocar em seus filmes muitos aspectos diferentes para serem interpretados, levando a reflexões diferentes a partir dos momentos que constrói em sua narrativa. Seja por aquilo que mostra de fato na cena, por aquilo que cada momento deixa implícito ou pela reflexão geral de toda a trama, o horror de Aster procura sempre atingir o expectador em algum nível interno e pessoal.

O OLHAR ININTERRUPTO

Um dos aspectos mais marcantes do trabalho de Aster é a forma como ele conduz as cenas de horror em seus filmes, muitas vezes se valendo de planos longos sem um grande número de cortes. Isso por si só elimina o uso de jumpscares em inúmeras cenas, nas quais a tensão se constrói conforme o personagem é seguido pela câmera, seus movimentos acompanhados sem mudanças drásticas. É uma técnica interessante porque permite que o espectador esteja mais atento a detalhes na cena, podendo captar alguma coisa escondida nos fundos do cenário. Não é por acaso que o próprio diretor coloca elementos e personagens ocultos nos fundos da cena, muitas vezes no intuito de provocar esse olhar mais atento e paranoico sobre seus filmes.

Aster utiliza essa técnica para alimentar um tipo de horror que não se baseia em sustos rápidos. No terror dos jumpscares e dos ataques repentinos, o medo e a tensão são rapidamente liberados, permitindo ao espectador um momento de recuperação em meio à narrativa. Mas com suas tomadas longas, momentos prolongados de silêncio e poucos sustos repentinos, Aster estabelece como sua prioridade a construção contínua da tensão, propiciando raros momentos para sua liberação e forçando-a a crescer cada vez mais, o que, por si só, propicia também um maior momento de catarse quando toda essa energia é por fim liberada.

O diretor também se destaca pelo seu uso da violência, por dois fatos que quase parecem opostos: Suas cenas de violência física são bastante pesadas e brutais, mas não são muito numerosas. Essa combinação cria uma situação narrativa interessante, onde o uso da violência não se desgasta ou perde seu choque. Seja o acidente de Charlie em Hereditário ou o sacrifício realizado em Midsommar, tais cenas permanecem na memória do público por sua brutalidade e pelo fato de que, ao longo do filme, são poucas as demais cenas que trarão essa violência gráfica tão pesada.

Charlie, personagem que protagoniza uma das cenas mais pesadas e angustiantes de Hereditário

Que fique claro que Aster não é o primeiro diretor a não se valer de uma violência física constante e a privilegiar um horror psicológico e emocional nas suas cenas. O que torna essas cenas tão icônicas é justamente o fato de que elas se destacam em narrativas que parecem mais interessadas em construir uma tensão prolongada e interna dos personagens, e ainda assim esse breve momento de choque físico intenso é efetivo. Ao colocar essas poucas cenas de brutalidade física nos filmes, geralmente estabelecendo-as como gatilhos para os personagens, o diretor permite que o público também sofra os efeitos transtornadores de tal cena, colocando os espectadores no mesmo patamar que os personagens e permitindo que a mesma tensão cresça em ambos.

OS RITUAIS

Outro aspecto bastante proeminente nos filmes de Aster é a presença de algum culto ou ritual pagão, geralmente ligado a um grupo de personagens do qual os protagonistas não fazem parte, mas com quem estabelecem relações ao longo do filme. Hereditário apresenta esse aspecto em um estágio mais avançado da narrativa, apesar de lhe dar importância para a trama como um todo, ao passo que Midsommar introduz esse aspecto como uma das forças principais de sua história.

Cultos pagãos e religiões estranhas à sociedade ocidental cristã são temas muito usados em filmes de terror, como forma de mobilizar alguma força oculta e explorar o medo das pessoas em relação ao desconhecido. Aster, mais uma vez, não parece inventar algo novo ao introduzir esse elemento, com o qual trabalha com bastante fervor em seus filmes. E, mais uma vez, é o seu uso desses elementos que dá destaque aos seus filmes. Porque o diretor não se limita a estabelecer esses cultos como uma força maligna em si só, mas opta por trabalhá-los como um elemento estrangeiro e desconhecido, mas que oferece aos protagonistas algum atrativo.

Midsommar deixa isso muito mais esclarecido. O próprio motivo do grupo de protagonistas é viajar para a Suécia no intuito de testemunhar e estudar um ritual pagão tradicional. Existe uma força motriz primordial que os conduz ali com um objetivo específico, que leva o filme a explorar o ritual praticado de uma forma mais atenta a detalhes e complexa. E, a partir desse desejo inicial, o filme constrói a relação da protagonista (vivida por Florence Pugh) com o ritual, adentrando-o como uma forma de enfrentar e aceitar os traumas das perdas familiares que a aterrorizam tanto. Existe um propósito maligno em alguns membros do culto, especialmente diante dos integrantes do grupo que desejam destrinchar os segredos do local de maneira mais profunda do que o permitido. Mas, para a protagonista em si, o culto se torna, ao longo da narrativa, uma experiência para tentar lidar com um problema interno e pessoal dela.

A personagem de Florence Pugh em Midsommar envolta por flores como parte do ritual

Embora estabeleça seu culto em um estágio mais avançado da narrativa, Hereditário também se vale desse uso do mesmo. Porque, quando é introduzido na narrativa, o culto é estabelecido como uma resposta para uma família incapaz de lidar com a perda da filha mais jovem. Seus integrantes possuem intenções maléficas e o uso do ritual já estava planejado há tempos, mas a maneira como a família é trazida para o mesmo reflete a incapacidade de seus membros de lidarem com essa perda que os atormenta. É a sua culpa e o luto que sentem que os leva a cair nas maquinações do mesmo.

O que torna o uso desses rituais no filme de Aster interessante é que tais rituais não são empregados como uma força maligna quase onisciente, que entra na vida dos protagonistas por conta de alguma decisão sem motivo que eles tomam. Em vez disso, eles oferecem aos protagonistas uma resposta para uma aflição que eles sentem, e recebem permissão para crescer em força por causa do desejo dos próprios protagonistas de silenciar essa aflição, sem perceber o que estão alimentando para isso.

O HORROR DOS TRAUMAS INTERNOS

No contexto geral, é impressionante por si só que Aster combine os dois aspectos listados acima de maneira tão eficiente, dando aos seus filmes um toque de sobrenatural com os cultos sem precisar recorrer a jumpscares baratos de móveis batendo ou portas abrindo do nada, ou mesmo cenas de violência desnecessárias. A opção por uma tensão crescente e acumulativa dá ao espectador a horrível sensação de um mal que aos poucos se torna mais e mais forte, sem se revelar com muita clareza, o que aumenta ainda mais a nossa ansiedade.

No topo de tudo isso, porém, existe um terceiro elemento sempre presente nos filmes de Aster. Um que se torna primordial para que suas histórias tenham o efeito que possuem: a atenção essencial aos traumas e dores dos protagonistas, e à maneira como estes os impulsionam em suas decisões. Porque, mesmo que os aspectos sobrenaturais tenham o seu local nos filmes de Aster, sua presença só é reforçada como elemento de terror por causa de algo interno aos personagens, alguma dor que eles já carregam e que intensifica as situações horríveis em que eles se colocam.

A força que esse aspecto do trauma concede aos filmes é a maneira como ele faz com que os elementos sobrenaturais assumam uma explicação parcial que coloca o espectador em dúvida sobre o que está acontecendo. No caso de Hereditário, a prática dos rituais pagãos pelo culto que persegue a família aponta para um lado sobrenatural real, mas esse aspecto só é confirmado na parte final do longa. Nos encontros iniciais da família com fantasma, esse aspecto, mesmo que presente, reforça muito mais o luto e a culpa de seus integrantes. Estaria Annie (Toni Colette) realmente vendo o fantasma de sua mãe, ou seria apenas seu luto e a reflexão de sua relação conturbada com ela? Será que Peter (Alex Wolff) é realmente atormentado pelo fantasma de sua irmã Charlie (Milly Shapiro) ou é apenas a culpa que ele sente por causa do acidente?

Annie, vivida por Toni Colette, observa horrorizada os efeitos de seus atos em Hereditário

Longe de ser um elemento que nega a existência do sobrenatural, a existência desse trauma nos personagens e a exploração aprofundada do mesmo dá uma nova força e um novo significado aos eventos aterradores que acontecem nas tramas. Sua presença dá um novo propósito à existência do sobrenatural. Fantasmas e demônios não afetam aqueles personagens apenas porque eles foram escolhidos por um culto ou entidade infernal, mas porque existe algo naquele grupo de pessoas que elas não conseguem lidar, algo que atormentou-os profundamente e que permanece dentro deles, como uma culpa ou um medo do qual eles não conseguem se livrar, e que abre espaço para a influência dessas forças sobrenaturais.

Midsommar pode ser o melhor exemplo para analisarmos isso, visto que o sobrenatural neste filme, se existe, é muito mais subentendido do que realmente presente. Existe uma força maléfica por traz dos membros da comunidade, mas boa parte do terror sentido pela personagem vem de seu luto diante da morte de seus pais e do suicídio da irmã, algo com que ela não consegue lidar muito bem. Essa incapacidade de suportar esse trauma transforma sua viagem pela comunidade em uma experiência cheia de horrores. Mas, ao mesmo tempo, é na maneira com que ela acaba se conectando à comunidade pagã que ela encontra uma forma de alcançar um pouco de paz para os abalos em sua vida.

E é nesse ponto em que os outros dois aspectos da obra de Ari Aster também são reforçados pela existência desse aspecto traumático (e, por consequência, também acabam reforçando-o). O uso de cenas prolongadas e de uma tensão acumulativa se beneficia da existência de um medo ou uma culpa dentro dos personagens com os quais eles não lidam, e que permanece lá, crescendo e se acumulando, até não ter mais para onde ir e precisar ser liberado forçosamente. E nesse aspecto, os rituais e cultos surgem como esse aspecto estranho e possivelmente perigoso, mas que oferece algo a esses personagens em conflito interno. Uma forma de libertar essa força nociva que eles carregam em si, de lidar com o problema que os abala. E é através dessa oferta tão necessária que esses rituais capturam os personagens em sua teia e os mergulham nos aspectos realmente sobrenaturais, fortalecidos por esses mesmos traumas que os afetam.

Ari Aster estabelece um parâmetro poderoso para a exploração do horror interno, do terror pessoal e íntimo de seus personagens. Seu uso de elementos fantásticos e sobrenaturais é notório, mas a maior parte da tensão de suas histórias vem dessa incapacidade de seus personagens de lidarem com suas próprias experiências. Nesse aspecto, seus filmes atingem um elemento do terror muito mais próximo do público e mais real. Por esse motivo, seus filmes sempre são desconfortáveis para o público, mesmo que não sejam assustadores. Aster afeta o íntimo das pessoas, sem a necessidade de um excesso de violência ou de aparições terríveis.

Joaquin Phoenix como o protagonista de Beau Tem Medo.

Podemos também analisar a presença desses elementos em Beau Têm Medo, um filme sobre um homem atormentado pela ansiedade que enfrenta uma jornada difícil para retornar para casa. A própria existência desse elemento da ansiedade e do medo do mundo que afeta o protagonista já fortalece o aspecto de um trauma existente com o qual o personagem deve lidar. Elementos do terror, sejam os cultos, a violência ou o lado sobrenatural, que sejam adicionados a essa questão tendem a ser reforçados e a reforçarem esse lado íntimo, criando um elo com o público que permite a compreensão desse lado mais interno do personagem.

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